
The hoax, 2007. Direção: Lasse Hallstrom. Elenco: Richard Gere, Alfred Molina, Hope Davis, Marcia Gay-Harden, Stanley Tucci, Julie Delpy.
Está complicado para Lasse Hallstrom conseguir fazer filmes bem-sucedidos depois que a Miramax perdeu o prestígio de outrora. Hallstrom conseguiu, consecutivamente, em 1999 e 2000 que dois de seus filmes conseguissem indicações ao Oscar de Melhor Filme, tratam-se de "Regras da Vida" e a fábula "Chocolate". São trabalhos modestos, corretos em suas narrativas, mas nada que merecesse o alarde que uma indicação ao prêmio provoca, é claro que por trás disso há o dedo de Harvey Weinstein. Com a perda da influência da Miramax, as falhas nas histórias dirigidas por Hallstrom foram aparecendo e os fracassos vieram com "Chegadas e Partidas"(para mim o melhor filme do diretor, ainda não descoberto) e "Casanova"."O Vigarista do Ano" surgiu de maneira despretenciosa, rendendo ótimos elogios não só ao filme, como também a Richard Gere, seu protagonista.
"O Vigarista do Ano" narra as peripércias de Cliffton Irving, um escritor em busca de oportunidade, que arma todo um plano para convencer uma editora a publicar uma biografia, escrita por ele, supostamente autorizada, do bilionário Howard Hughes(personagem interpretado por Leonardo DiCaprio em "O Aviador" de Martin Scorsese em 2004, lembram?).Para isso Cliffton afirma por meio de provas falsificadas e uma série de estratagemas que Hughes entrou em contato com ele, autorizando-o a elaborar o livro sobre sua vida. Como Cliffton sustenta sua mentira é o que "O Vigarista do Ano" se propõe a contar.
"O Vigarista do Ano" começa muito bem, lembrando até o "Prenda-me se for capaz" do Spielberg em sua proposta. É muito interessante acompanhar as manobras de Cliffton durante o processo de elaboração da suposta biografia autorizada de Howard Hughes, a semelhança reside na perspicácia do personagem de Gere, assim como fez o personagem de Leonardo DiCaprio em "Prenda-me se for capaz", em arquitetar toda uma rota e se desvencilhar de armadilhas criadas pelo simples fato de que tudo que gira em torno da biografia escrita por Cliffton é mentira. O elenco está excelente, com destaque para Richard Gere, que demonstra nos últimos anos um crescimento artístico louvável(vide sua interpretação em "Chicago" de 2002, por exemplo). Os coadjuvantes de Gere também roubam a cena é o caso de Alfred Molina, interpretando o parceiro de Clifford em sua farsa, e Hope Davis. Lamento apenas a participação de Julie Delpy, apesar de seu personagem ser essencial no momento final de "O Vigarista do Ano", ela faz parte de um dos pontos negativos do filme.
O roteiro de William Wheeler apresenta a falha que a maiorias dos trabalhos de Lasse Hallstrom apresentam no miolo de suas narrativas, anda em círculos, apresentando cenas desnecessárias pela banalidade. O mesmo pode-se dizer da trama paralela a interessante saga na construção do livro sobre Howard Hughes, um caso extraconjugal de Clifford que o coloca em conflito com a personagem de Marcia Gay-Harden, sua esposa.
Outro aspecto interessante de "O Vigarista do Ano" é a abordagem de Howard Hughes, personagem vital da história norte-americana e que acompanhamos na excelente obra de Martin Scorsese "O Aviador". O filme de Lasse Hallstrom apresenta o personagem sem nunca trazê-lo representado por um ator, mas ele é sempre mencionado pelos outros personagens, principalmente por Clifford, o que só ajuda no entendimento da figura estranha de Hughes. Para quem se interessou por Hughes, "O Vigarista do Ano" não deixa de ser um extensão ou complementação de "O Aviador".
Apesar da trama interessante e muito bem desenvolvida, "O Vigarista do Ano" cansa, como todo filme do Lasse Hallstrom, pela banalidade que toma conta dos acontecimentos do filme bem no meio da narrativa.É mais um trabalho interessante técnica e artisticamente, pois tanto os atores quanto direção de arte e figurino estão de parabéns, mas perde o vigor depois de cinquenta minutos, recuperando fôlego somente nos quinze minutos finais. Apesar das críticas, o melhor trabalho do diretor continua sendo "Chegadas e Partidas", e "O Vigarista do Ano" apesar de inovar pela proposta, no currículo do diretor, apresenta os vícios da maioria de seus filmes.