sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Melhores de 2010 - Filme

Melhor Filme
A Rede Social

Fácil ser bilionário quando se é  simplesmente genial, difícil é manter e criar amizades no mundo em que vivemos. Com a ajuda de seu melhor amigo, o brasileiro Eduardo Saverin (Andrew Garfield), Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) põe em prática uma sugestão dos atléticos e populares irmãos Winklevoss (Armie Hammer) de criar uma rede social em Harvard, e aperfeiçoa esta ideia. A aproximação com os Winklevoss surge a partir da popularidade de Zuckerberg que cria, logo após levar um fora homérico e bem merecido de sua então namorada Erica Albright (Rooney Mara), em seu quarto no dormitório da Universidade, um site no qual os estudantes elegem as garotas mais bonitas ou feias do campus. A questão é que, a partir desta ideia chauvinista, Zuckerberg cria uma rede de relacionamentos que proporciona a ele a possibilidade de criar o Facebook, uma das maiores redes sociais da internet em todo mundo. Para alcançar a fortuna e o poder, Zuckerberg passa a rasteira em seu melhor amigo e perde o amor de sua vida com a estúpida atitude de agredir moralmente Erica em seu blog. Esta falta de habilidade e cuidado nos relacionamentos do mundo real e o jogo de intrigas e acusações que assistimos em A Rede Social de David Fincher é o irônico e melancólico retrato de uma juventude que torna-se cada vez mais fria e pouco afeita a contatos mais calorosos, relacionamentos verdadeiros que se baseiam em troca e cumplicidade. Fincher realiza com seu filme um estudo de personagem, destrinchando a personalidade antisocial, o raciocínio rápido e a vaidade do criador do Facebook como elementos extremamente nocivos para o mesmo em suas relações no mundo de carne, osso e concreto. Não há um único ponto de vista, não há uma autoria determinada e tampouco a promessa de aproximar pessoas do Facebook se cumpre, não pelo site em si, mas pela forma com que as pessoas desajeitada com que as pessoas estabelecem e rompem vínculos sociais. A Rede Social presta um grande serviço ao cinema no ano de 2010, realizando aquilo que, ao menos na minha concepção, existe de mais fascinante no cinema como instrumento reflexivo: visita e denuncia o comportamento social e político de uma época. A Rede Social, com todas as suas futricas universitárias, é um filme inteligente e completo como um projeto artisticamente alinhado com seu tempo, mas que certamente servirá a outras gerações.

Em anos anteriores: Avatar (2009), Amantes (2009), Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008), Pecados Íntimos (2007) e Filhos da Esperança (2006).


Voto dos Leitores
Melhor Filme
A Origem - 44%

A Origem é um verdadeiro enigma. Complexo e repleto de possibilidades de leitura, o filme de Christopher Nolan é protagonizado por um grupo de espiões industriais liderados por Dom Cobb (Leonardo DiCaprio) que assume uma missão bastante complicada. Acostumados a extrair ideias das mentes de milionários através dos sonhos, o grupo recebe a oferta de um grande empresário para realizar a façanha de inserir na mente de seu principal concorrente a ideia de dividir seu império corporativo. A proposta parece ainda mais tentadora quando o homem promete dar a Cobb, em troca do serviço, livre passagem nos EUA e a possibilidade de reunir sua família novamente. Esta é a premissa de A Origem e tão interessante quanto ela são os desdobramentos que o diretor e roteirista Christopher Nolan dá a mesma. Nolan assume a perspectiva da mente traumatizada de Cobb para traçar a narrativa do longa e o resultado é simplesmente formidável. Cobb permaneceu no limbo, acreditanto piamente em uma realidade projetada pelos desejos de sua mente, ou despertou de seu sono e finalmente reencontrou seus filhos? Meu palpite é o primeiro, mas assim como Dom Cobb sempre parece inseguro quanto a concretude dos acontecimentos, sempre recorrendo ao pião para certificar-se se está dormindo ou se está acordado, certamente nunca teremos esta resposta, afinal como a mente de Cobb exita em reconhecer o real, o ilusório pode parecer tão verossímil e palpável quanto este. A Origem é inegavelmente a aposta mais ousada do ano e demonstra que qualquer ambição cinematográfica de Christopher Nolan vale a pena, afinal existem muitos poucos como ele.


Top 10 - Melhores do Ano

# 3. Toy Story 3

Como o primeiro e o segundo lugar já foram exaustivamente destrinchados anteriormente (#1. A Rede Social e #2. A Origem, escolha do blog e dos leitores, respectivamente), vamos ao terceiro colocado do ranking de 2010. Toy Story 3 é a prova cabal de que, nem mesmo quando existem propósitos comerciais muito maiores que os criativos, a Pixar jamais erra. O estúdio de animação parceiro da Disney realizou um dos filmes mais completos do ano, um filme que supera qualquer expectativa ao fechar de maneira genial uma das fraquias mais bem sucedidas da história recente do cinema. Toy Story 3 é um filme que fala sobre a dificuldade de realizar o rito de passagem para a fase adulta e a importância do desapego material. Desse jeito começo até a pensar que Carros 2 será imbatível em 2011! Afetivamente, Toy Story 3 é imbatível!

# 4. O Garoto de Liverpool

A estreia da diretora Sam Taylor-Wood na condução de um longa metragem surpreende ao utilizar as memórias da irmã de John Lennon para contar uma das passagens mais determinantes da vida deste ídolo do século passado: sua adolescência. Taylor-Wood e seu roteirista, Matt Greenhalgh, acertam ao evitar a obviedade de uma cinebiografia e tratam sobre a maternidade e a importância de referenciais para definir quem seremos na vida adulta, afinal nem mesmo John Lennon (Aaron Johnson), que nunca conheceu o pai, veio de lugar nenhum, sua atenção foi disputada por Julia (Anne-Marie Duff), sua mãe biológica, e Mimi (Kristin Scott Thomas), sua tia que o criou desde criança, durante boa parte do início da formação dos Beatles.

# 5. O Escritor Fantasma

A conturbada vida pessoal de Roman Polanski não pode ser confundida com sua obra. O Escritor Fantasma, filme que teve todo o processo de pós-produção realizado em prisão domiciliar por Polanski, é um grande thriller político. Fazendo o que sabe fazer melhor, Polanski cria conspiração, jogos políticos e um clima absolutamente soturno para contar a história de um escritor fantasma (Ewan McGregor) contratado por um ex-primeiro-ministro britânico (Pierce Brosnan) para escrever sua biografia. O escritor é surpreendido por revelações sobre a misteriosa morte de seu antecessor e sobre uma possível ligação de seu biografado em tramas políticas. Bem executado e bem escrito, O Escritor Fantasma é um filme elegante, sofisticado e que prende a atenção do espectador do começo ao fim, como um bom filme do gênero (só que este aqui é ótimo!).

# 6. Ilha do Medo

Não me canso de defender Ilha do Medo quando seus detratores o acusam de ser somente um exercício de estilo de Martin Scorsese. Não que o novo filme do Scorsa não o seja, ele o é, mas também detém personalidade própria e permite um jogo psicológico interessantíssimo com o espectador na medida em que, assim como A Origem, conta sua trama pela perspectiva tendenciosa e paranóica de seu protagonista, uma mente inegavelmente perturbada por fantasmas do passado. A história segue um detetive, Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio), em uma missão na isolada Shutter Island para descobrir o paradeiro de uma das pacientes do manicômio judiciário instalado no local.

# 7. Como treinar o seu Dragão

A DreamWorks era um estúdio de animação rasteiro e que andava na sola do sapato da Pixar, só realizava produções lamentáveis e pouco criativas como Madagascar e O Espanta Tubarões e se mantinha com as glórias de seu primeiro produto, Shrek de 2001. Kung Fu Panda melhorou a imagem da DreamWorks, mas Como treinar o seu Dragão a elevou a outro patamar, sinalizando que o estúdio ainda pode ser uma força criativa que rivalize com a Pixar. A trama de Como treinar o seu Dragão pode até ser "quadradinha" em sua concepção, mas existe tanto sentimento naquele filme, os personagens e a dinâmica que os mesmos estabelecem é tão fascinante que o filme eleva-se a outro patamar, ratificando a força de histórias que por mais que ouçamos várias vezes e de diferentes formas, continuam com o mesmo impacto se existir vida e emoção em sua condução.

# 8. Sei que vou te amar

Muita gente nunca ouviu falar de Sei que vou te amar, produção australiana que colecionou prêmios por onde passou em 2008, mas não há do que se culpar. Lançado com pouco alarde no Brasil, chegando direto em DVD pela Paris Filmes, Sei que vou te amar, ou The Black Balloon no original, precisa ser descoberto. O filme conta a história de uma família australiana que está a espera de seu terceiro membro, a matriarca (Toni Collette) está grávida e em função de sua condição deixa as responsabilidades de cuidar da casa com seu segundo filho, Thomas (Rhys Wakefield). Tudo seria fácil para Thomas, não fosse o fato de ser um adolescente, ter acabado de chegar na vizinhança e ter um irmão autista, o primogênito da família, Charlie (Luke Ford). O filme é tocante, sem jamais ser piegas, e demonstra a habilidade da diretora Elissa Down em explorar dramas familiares e a difícil arte de tolerar as diferenças e de encontrar um lugar no mundo.

# 9. A Fita Branca

O diretor alemão Michael Haneke é mestre em testar nossos nervos, já fez isso em Violência Gratuita e seu remake, em Cache, e agora parte para uma abordagem mais contemplativa e gradual com A Fita Branca. Mas é preciso dizer, A Fita Branca traz consigo todas as características que marcaram a carreira de Haneke, reveladas em seu emblemático desfecho. O filme traz a história de uma comunidade camponesa que vive em um vilarejo no interior da Alemanha, no período que antecede a Primeira Guerra. Abusos começam a ser cometidos contra as crianças do local e misteriosamente os responsáveis pelos atos são castigados. Com seu contundente e meticuloso longa-metragem, Haneke busca as origens do nazismo e da violência que dominaram a Alemanha e que se dissiparam por todo o mundo no século passado.

# 10. Amor sem Escalas

A despeito do péssimo título nacional, Amor sem Escalas não é uma comédia romântica. Mas um cínico retrato dos EUA após a crise financeira de dois anos atrás e um filme sobre necessidade do homem de ter uma companhia. Ryan Bingham (George Clooney) trabalha em uma empresa contratada por outras para demitir seus funcionários, quando os custos da manutenção da rotina de seu cargo já não podem ser sustentados  sem restrições pela companhia, ele ganha a companhia de Natalie Keener (Anna Kendrick), uma jovem funcionária que aperfeiçoa um mecanismo de demissão por tele-conferência. Durante as viagens que realiza pelos EUA para testar o novo método da empresa, Ryan começa a se envolver amorosamente com Alex (Vera Farmiga), uma executiva que, assim como ele, aparentemente parece prezar pela objetividade e evita estabelecer qualquer vínculo amoroso permanente. O roteiro de Amor sem Escalas é brilhante e saborosamente bem escrito, assim como sua direção é bem humorada e preza pela sensibilidade no tratamento de seus personagens. Um filme que valoriza o aconchego e a importância de uma companhia para superar as mazelas da vida.

Total de Menções:
A Rede Social -> 6
A Origem -> 6
Ilha do Medo -> 3
O Garoto de Liverpool -> 2
Toy Story 3 -> 2
Direito de Amar -> 2
Alice no País das Maravilhas -> 2
Minhas Mães e Meu Pai -> 2
Vincere -> 1
Sei que vou te amar -> 1
A Jovem Rainha Vitória -> 1
Onde vivem os Monstros -> 1
Como treinar o seu Dragão -> 1

Melhores de 2010 - Direção

Melhor Direção
Martin Scorsese
Ilha do Medo

Você pode até não gostar de Ilha do Medo ou achar que Martin Scorsese já fez coisa melhor, mas não há como negar que o longa é a prova viva de que o bom e velho Scorsa é uma enciclopédia viva do cinema norta-americano. Scorsese conhece cada gênero, cada proposta e cada olhar que o cinema ianque já proporcionou e em Ilha do Medo expõe abertamente todas as suas referências cinematográficas como Alfred Hitchcock, Orson Welles, Samuel Fuller e Robert Wiene, entre outros. Scorsese transformou o suspense de Dennie Lehane, adaptado pelo roteiro de Laeta Kalogridis, em uma verdadeira aula de cinema, de gêneros cinematográficos, um verdadeiro deleite para qualquer cinéfilo. Mas Ilha do Medo não é só um apanhado de referências como muitos insistem texar, o longa de Scorsese, ambientado no clima neurótico do pós-guerra, paranoia amplificada pelo macartismo norte-americano da década de 1950, transforma-se em uma viagem materializada pela mente de seu protagonista, o atormentado e traumatizado policial Teddy Daniels, vivido estupendamente bem por Leonardo DiCaprio. Assim, Scorsese nos conduz a um enigmático desfecho e traça toda uma narrativa, repleta de referências, que utiliza seu personagem principal para definir a óptica de sua trama. Vale dizer que Ilha do Medo é uma verdadeira aventura para Martin Scorsese que nunca realizou nada do gênero e que realiza um trabalho artística e tecnicamente impecável.

Menções: David Fincher por A Rede Social, Michael Haneke por A Fita Branca, Christopher Nolan por A Origem, Roman Polanski por O Escritor Fantasma, Jason Reitman por Amor sem Escalas.
Em anos anteriores: James Cameron por Avatar (2009), Christopher Nolan por Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008), Todd Field por Pecados Íntimos (2007) e Alfonso Cuarón por Filhos da Esperança (2006).

Voto dos Leitores
Melhor Direção
Christopher Nolan - 46%
A Origem

Semelhante à realização de Scorsese em Ilha do Medo, e curiosamente contando com o mesmo ator utilizado por Martin (Leonardo DiCaprio, em um ano memorável de sua carreira), Christopher Nolan também utiliza a perspectiva de mundo do protagonista de seu filme para contar A Origem. Dom Cobb, arquiteto que em dado momento de sua vida passa a ser um extrator de informações que invade os sonhos de suas vítimas, é um homem que domina o mundo ilusório dos sonhos como nenhum outro e até mesmo por dominá-lo tanto, em dado momento da trama, passa a ser atormentado pela dúvida se o que vive é real ou fruto de suas projeções, realizando no espectador de A Origem  o mesmo novelo de dúvidas que certamente atormentará o protagonista do filme por toda uma vida. Nolan não só, e mais uma vez (lembrem-se que ele também é responsável pelo espetacular Batman - O Cavaleiro das Trevas), realiza um trabalho de esforços impecável para transformar seu filme em um empolgante espetáculo de ação, como também conduz o espectador a emoções e sensações indescritíveis, além de instigá-lo a entender a lógica do mundo criado por ele e seus possíveis desdobramentos. Sagaz e complexo, A Origem define Christopher Nolan como um dos poucos cineastas em atividade que realiza um cinema de puro entretenimento sem deixar de lado o teor humano, emocional e inteligente que qualquer filme deveria ter, mas que, por insistência hollywoodiana de subestimar o gosto e a inteligência do público, inevitavelmente abandona em uma sala de pós-produção. Ah, se a cada temporada de férias tivesse um filme do Christopher Nolan... Infelizmente a maioria delas é feita Transformers e Fúria de Titãs da vida...

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Melhores de 2010 - Roteiros

Melhor Roteiro Original
A Origem
Christopher Nolan

O inglês Christopher Nolan já deixou de ser uma promessa no cinema, para se tornar um dos melhores realizadores de seu tempo. No roteiro de A Origem, Nolan, sozinho e sem a habitual parceria de seu irmão Jonathan, concebe uma obra cinematográfica indiscutivelmente fascinante. Tomando como perspectiva narrativa para uma trama de espionagem industrial ambientada em sonhos, Nolan constrói uma intrincada trama de ação que posteriormente revela sua verdadeira razão de ser. A Origem é, antes de mais nada, uma incomum e trágica história de amor protagonizada pelos personagens de Leonardo DiCaprio e Marion Cotillard, impulsionando o protagonista a embarcar em uma missão perigosa em seu subconsciente com o único propósito de reestruturar sua família, ou ao menos juntar os cacos do que sobrou dela. Christopher Nolan coloca a racionalidade de seus roteiros, algo que já vimos em Batman - O Cavaleiro das Trevas e Amnésia, para preencher a tela não somente com um fantástico espetáculo visual, mas também com uma história repleta de interpretações sobre a dificuldade de encarar as imperfeições da realidade em face da linearidade e da plena satisfação que a ilusão pode oferecer. Nolan sabiamente utiliza a mente de  Dom Cobb (DiCaprio) como fio condutor de seu roteiro, deixando no espectador uma grande interrogação sobre o desfecho de sua obra (o que é genial e já demonstra o diferencial de um filme que jamais revela-se óbvio ou entrega respostas prontas a plateia - o que particularmente acho de um tédio e de um mal gosto profundo), assim como certamente o mundo dos sonhos é para Cobb. Inteligente como filme de ação e arrebatador em suas emoções, A Origem é um dos roteiros mais completos e inesquecíveis do ano.

Menções: Michael Haneke por A Fita Branca, Adam Elliot por Mary e Max, Jacques Audiard e Thomas Bidegain por O Profeta, Elissa Down e Jimmy Jack por Sei que vou te amar, Woody Allen por Tudo pode dar certo
Em anos anteriores: James Gray e Ric Menello por Amantes (2009), Woody Allen por Vicky Cristina Barcelona (2008), Peter Morgan por A Rainha (2007) e Michael Arndt por Pequena Miss Sunshine (2006). 
Voto dos Leitores: A Origem de Christopher Nolan - 93%.

Melhor Roteiro Adaptado
A Rede Social
Aaron Sorkin

Utilizar o livro Bilionários por Acaso, de Ben Mezrich, que narra a história sobre a origem da rede de relacionamentos Facebook, como pretexto para definir uma geração é um dos grandes feitos do roteiro escrito por Aaron Sorkin para A Rede Social. O filme de David Fincher não é sobre o Facebook, tampouco uma biografia completa e detalhada de seu criador, Mark Zuckerberg, trata-se de um interessante estudo de personagem que se estende em significados. Diálogos afiados e deliciosos são alguns dos ingredientes utilizados por Aaron Sorkin para deixar os bastidores dos dormitórios de Harvard repletos de intrigas, manipulações e traições, um território interessante a ser desbravado. Sorkin deixa claro em seu roteiro que vivemos em uma sociedade onde é cada vez mais difícil atribuir autorias às ideias, onde as relações interpessoais são facilmente descartadas em prol de poder e vingança, onde a juventude é guiada pelo ego, uma geração que está sempre à espreita de ideias revolucionárias e que cada vez mais esquece de fortalecer a afetividade e a humanidade em suas relações. O grande acerto de Sorkin foi não transformar Mark Zuckerberg em um capitalista maquiavélico, mas sim um jovem guiado pela sua personalidade introspectiva, racional e pouco afeita à afetividade. O roteiro de A Rede Social não só consegue evidenciar este paradoxo (a criação de uma página destinada a relacionamentos pessoais por um sujeito sem a menor habilidade em estabelecê-los), como também trata de temas impensáveis em um material como este, ou seja, fez do limão uma limonada.

Menções: Jason Reitman e Sheldon Turner por Amor sem Escalas, Dean DeBlois, Chris Sanders e William Davies por Como treinar o seu Dragão, Roman Polanski e Robert Harris por O Escritor Fantasma, Matt Greenhalgh por O Garoto de Liverpool, Michael Arndt por Toy Story 3.
Em anos anteriores: Peter Morgan por Frost/Nixon (2009), Christopher Nolan e Jonathan Nolan por Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008), Todd Field e Tom Perrotta por Pecados Íntimos (2007).
Voto dos Leitores: A Rede Social de Aaron Sorkin - 57%.

Melhores de 2010 - Atriz

Melhor Atriz
Giovanna Mezzogiorno
Vincere

Em Vincere, do italiano Marco Bellocchio, Giovanna Mezzogiorno protagoniza uma das mais trágicas e vergonhosas páginas da história da Itália fascista de Benito Mussolini, ditador que organizou uma verdadeiro estado das trevas entre a década de 30 e 40 do século passado. O filme narra o trágico destino de Ida Dalser, uma esteticista bem instruída e de boa família, que vende tudo o que tem para financiar o movimento político do Mussolini ainda jovem por estar perdidamente apaixonada por ele. Ida Dalser, segundo alguns, casou-se com Mussolini antes deste ir a guerra. Acontece que, conforme os anos vão passando e conforme o ditador avança em seus planos de alcançar o poder, Mussolini esquece de Dalser. Quando revela estar grávida de Benito e exige seu reconhecimeto como sua esposa, ele não mede esforços para apagar a existência de Ida e do pequeno Benito de sua biografia, internando-a em um manicômio e declarando-a como louca. Giovanna realiza um trabalho excepcional como Ida Dalser, retratando-a como uma mulher governada por uma paixão avassaladora e que pela mesma acaba perdendo o senso da realidade da situação à sua volta. A contrução que a atriz italiana faz com Dalser em Vincere segue o ritmo do filme que pretende denunciar o falso mito de Benito Mussolini, feito até hoje por setores políticos conservadores da Itália, um homem que friamente levou a mulher e o filho à miséria e à loucura. A atuação de Mezzogiorno na pele de Ida Dalser é insuperável, um verdadeiro colosso que atesta a entrega e o compromisso da atriz para com a trajetória problemática e conturbada de uma personagem que oscila em emoções a cada passagem do filme.

Menções: Annette Bening por Minhas Mães e Meu Pai, Emily Blunt por A Jovem Rainha Vitória, Abbie Cornish por Brilho de uma Paixão, Julianne Moore por Minhas Mães e Meu Pai, Noomi Rapace por Os Homens que não amavam as Mulheres.
Em anos anteriores: Kate Winslet por Foi Apenas um Sonho (2009), Nicole Kidman por Margot e o Casamento (2008), Marion Cotillard por Piaf - Um Hino ao Amor (2007) e Meryl Streep por O Diabo veste Prada (2006).

Voto dos Leitores
Melhor Atriz
Julianne Moore - 41%
Minhas Mães e Meu Pai

Uma das mensagens que Lisa Cholodenko faz questão de passar com Minhas Mães e Meu Pai é a de que, mesmo nas famílias mais "moderninhas", os dilemas, os desafios e o amor é o mesmo daqueles que encontramos no que convenciona-se chamar "normal". Jules, interpretada por Julianne Moore, é a parte do casal homossexual e pais (?) de dois filhos que está começando a sentir-se incomodada com a forma com que as coisas estão indo. Casada há anos com Nic, de Annette Bening, e sem profissão definida, situação da qual secretamente atribui culpa a sua parceira, Jules começa a sentir-se atraída pelo pai biológico de seus filhos, o que acaba gerando momentos conturbados em uma dinâmica familiar aparentemente perfeita. Julianne Moore é uma escolha acertada da diretora para viver Jules e o faz com leveza, timing cômico e sensibilidade. Moore humaniza as ações e os sentimentos de sua personagem de tal forma que chega ser impossível condená-la por qualquer "pulada de cerca" no filme, afinal todos os motivos que a ensejam e a natureza desbravadora de Jules são definidos pela atriz com fluidez no decorrer de Minhas Mães e Meu Pai.

Melhores de 2010 - Ator

Melhor Ator
Leonardo DiCaprio
Ilha do Medo

O detetive Teddy Daniels chega a Shutter Island, uma ilha perto de Boston, para investigar o desaparecimento de uma das pacientes do manicômio judiciário instalado no local. Claro que em meio à investigação, o caso acaba trazendo à tona fantasmas da vida de Daniels, como o trauma provocado pela violenta morte de sua esposa. Leonardo DiCaprio vive como ninguém este sujeito atormentado por um passado sombrio e pelos horrores da Segunda Guerra, da qual participou no front de batalha, e que certamente definiu sua personalidade paranóica. Pouco a pouco, DiCaprio ajuda o espectador a entender a mente de Daniels, conduzindo-o ao catártico desfecho, onde enfim temos uma completa noção de quem é Teddy Daniels e porque ele realmente veio parar em Shutter Island. No liame entre a lucidez e a loucura, a interpretação de Leonardo é segura, estratégica e intensa, um personagem que busca inspirações nos protagonistas de James Stewart nos filmes de Hitchcock, mas que encontra sua identidade e complexidade em um dos melhores e mais subestimados desempenhos da carreira de DiCaprio. 

Menções: Jeff Bridges por Coração Louco, Jesse Eisenberg por A Rede Social, Colin Firth por Direito de Amar, Aaron Johnson por O Garoto de Liverpool, Rhys Wakefield por Sei que vou te amar.
Em anos anteriores: Ryan Gosling por A Garota Ideal (2009), Daniel Day-Lewis por Sangue Negro (2008), Gerard Butler por 300 (2007) e Philip Seymour Hoffman por Capote (2006).

Voto dos Leitores
Melhor Ator
Colin Firth - 46%
Direito de Amar

De repente a crítica descobre em Colin Firth um excelente ator. Vencedor do prêmio do Festival de Veneza por este filme, Firth surpreende a todos pela forma segura e sensível com que retrata o drama de um professor universitário homossexual, nos EUA dos anos 60, que decide se matar logo depois de descobrir que seu parceiro acaba de falecer. Em Direito de Amar, um filme que trata basicamente sobre sentimentos reprimidos, a interpretação contida de Firth é repleta de detalhes que evidenciam os sentimentos e desejos deste personagem que sabendo de antemão das dificuldades de ser um homossexual em seu tempo, enxerga na morte a saída para todos os seus medos, já que em sua cabeça jamais viverá algo parecido com aquele relacionamento que tinha com seu falecido namorado. Firth se desdobra para expressar as diversas emoções sentidas por seu personagem ao longo do filme e merece todos os elogios do mundo por este desempenho excepcional.

Melhores de 2010 - Atriz Coadjuvante

Melhor Atriz Coadjuvante
Kristin Scott Thomas
O Garoto de Liverpool

Mais uma vez escrevo sobre isso aqui no blog, O Garoto de Liverpool não é uma tradicional biografia cinematográfica sobre John Lennon (algo do tipo: onde nasceu, qual foi o primeiro sucesso...). A abordagem do filme de Sam Taylor-Wood é muito mais complexa, trata da juventude de Lennon e de sua busca por um referencial masculino em meio ao relacionamento que tinha com sua tia Mimi, sua mãe de criação na verdade, e Julia, sua mãe biológica que veio conhecer anos mais tarde. Assim, a presença de duas grandes atrizes para representarem a força da influência destas duas mulheres na vida de Lennon foi fundamental, e se por um lado tivemos em Anne-Marie Duff a doçura e a compreensão típicas da maternidade, encontramos em Kristin Scott Thomas, como a tia Mimi, a rigidez e a disciplina. O desempenho de Scott Thomas é formidável, a inglesa vive esta personagem com austeridade sem deixá-la antipática, pelo contrário, desde o início do filme o trabalho da atriz transforma Mimi em uma mulher admirável e muito simpática que dedicou anos de sua vida na criação de John Lennon, mesclando doses homeopáticas de humor com gestos singelos e comoventes de amor. Se existia uma falta de condescendência de Mimi à rebeldia adolescente de Lennon, eram os caminhos que ela entendia como necessários para a formação do grande homem.

Menções: Marion Cotillard por Nine, Marion Cotillard por A Origem, Anne-Marie Duff por O Garoto de Liverpool, Julianne Moore por Direito de Amar, Naomi Watts por Destinos Ligados.
Em anos anteriores: Zoe Saldana por Avatar (2009), Vanessa Redgrave por Desejo e Reparação (2008), Michelle Pfeiffer por Hairspray (2007) e Mia Kirschner por Dália Negra (2006).

Voto dos Leitores
Melhor Atriz Coadjuvante
Julianne Moore - 45%
Direito de Amar

Tá certo que Direito de Amar é um triunfo de Colin Firth, mas não há como manter-se indiferente diante dos poucos minutos que Julianne Moore tem na estreia de Tom Ford como cineasta. Com um papel pequeno e que surge em um momento chave do filme, instante em que são deflagradas as decisões mais importantes do personagem de Firth, Moore está ótima como Charley, uma ricaça inglesa que mantém uma amizade de anos com o professor universitário gay, vivido por Firth, e por quem nutre o sonho de um dia ter um relacionamento amoroso. O sotaque britânico empregado pela americana (irrepreensível) e cada detlhe da personalidade desta mulher são os ingredientes que fazem desta uma das melhores e mais injustiçadas interpretações da carreira de Julianne Moore. 

Melhores de 2010 - Ator Coadjuvante

Melhor Ator Coadjuvante
Luke Ford
Sei que vou te amar

Luke Ford é um ator australiano, praticamente desconhecido das platéias em geral. Estourou na Austrália com este pequeno filme de Elissa Down chamado Sei que vou te amar que acabou estreando somente em DVD no Brasil e com um enorme atraso, diga-se de passagem, já que é um longa de 2008. O fato é que neste drama familiar sobre a adolescência e a difícil tarefa de amadurecer, encontrar seu lugar no mundo e tolerar as diferenças, Luke se destaca na pele do autista Charlie Mollison. É impressionante a entrega de Ford ao personagem, uma interpretação que foge completamente dos exageros comumente destinados a este tipo de composição. Ford demonstra sensibilidade na hora de captar cada emoção de Charlie e adequá-las a sua condição, um trabalho muito bonito do ator, bastante delicado e igualmente comovente. O mais louvável deste premiado trabalho de Ford neste filme é que ele jamais apela para o risível, tornando Charlie uma figura completamente carinhosa e capaz de criar uma empatia imediata com o espectador, o que contribui e muito para criar o laço que une seu personagem ao protagonista do filme, Thomas Mollison, interpretado por Rhys Wakefield. Tomare que a carreira deste australiano vá longe! Curiosidade: Após Sei que vou te amar, Luke Ford foi chamado para A Múmia - Tumba do Imperador Dragão, onde interpreta o filho de Brendan Fraser, e faz parte do elenco de Reino Animal, outro premiado filme australiano.

Menções: Niels Arestrup por O Profeta, Eric Bana por Tá rindo do quê?, Andrew Garfield por A Rede Social, Armie Hammer por A Rede Social, Ewan McGregor por O Golpista do Ano.
Em anos anteriores: Christoph Waltz por Bastardos Inglórios (2009), Heath Ledger por Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008), Jackie Earle Haley por Pecados Íntimos (2007) e Jack Nicholson por Os Infiltrados (2006).

Voto dos Leitores
Melhor Ator Coadjuvante
Andrew Garfield - 36%
A Rede Social

Para quem torcia o nariz para Andrew Garfield depois que ele foi escolhido para viver o reboot de Homem-Aranha, A Rede Social foi uma inesperada rasteira. Como Eduardo Saverin, estudante brasileiro de Harvard que se tornou peça fundamental para Mark Zuckerberg criar o Facebook e que logo em seguida foi descartado por aquele a quem considerava como amigo, Andrew Garfield cria um personagem caloroso, criando no filme de David Fincher um ótimo contraponto à inabilidade social d Zuckerberg criado por Jesse Eisenberg. Garfield inspira confiança e dignidade com Saverin e cria de imediato uma empatia com o público.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Melhores de 2010 - Arte

Melhor Fotografia
A Rede Social
Jeff Cronenweth

A fotografia de A Rede Social evoca melancolia, solidão. Toda a trama que traz a discussão sobre a autoria do Facebook é apresentada por David Fincher com o único propósito de evidenciar a geração que acompanhou o avanço e a falta de privacidade que a Internet acabou gerando. Assim, Mark Zuckerberg, com todas as suas falhas completamente humanas, é um sujeito solitário que mesmo possuindo alguns poucos vínculos afetivos sinceros faz questão de sabotá-los, ainda que não perceba este caráter auto-destrutivo de sua personalidade. A maneira com que Jeff Cronenweth reproduz para nós os dormitórios de Harvard, sempre em tons amarelados ou esverdeados, em oposição à luminosidade com que apresenta as sequências protagonizadas pelos Winklevoss e a nata universitária da mais famosa e prestigiada universidade do mundo, proporciona ao espectador a transmissão da mensagem de Fincher de maneira discreta, porém efetivamente sensorial.

Menções: Direito de Amar, A Estrada, A Fita Branca, Ilha do MedoA Origem.
Em anos anteriores: Claudio Miranda por O Curioso Caso de Benjamin Button (2009), Edward Lachman por Não Estou Lá (2008), Harris Savides por Zodíaco (2007) e Dion Beebe por Memórias de uma Gueixa (2006).

Melhor Direção de Arte ou Design de Produção
Alice no País das Maravilhas
Robert Stromberg

No que diz respeito a sua estética, Alice no País das Maravilhas de Tim Burton é praticamente imbatível, sendo mesmo lamentável que tenha deixado tanto a desejar em sua trama. Fácil imaginar aquele País das Maravilhas como o que fora concebido por Lewis Carroll em sua obra literária, afinal todos os cenários inseridos no filme são espaços que aproximam-se muito do imaginário que projetamos para os mesmos. O palácio da Rainha Vermelha é uma das melhores criações do filme, repleta de detalhes que nos remetem a cartas de baralho, assim como o pântano onde o Chapeleiro Maluco e a Lebre desfrutam uma inusitada hora do chá. Há também o palácio da Rainha Branca, a Toca do Coelho... Enfim, se algo manteve-se fiel ao espírito da Alice de Carroll foi o visual projetado por Robert Stromberg para o filme.

Menções: O Escritor Fantasma, Ilha do Medo, O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus, A Origem, Tron - O Legado.
Em anos anteriores: Catherine Martin por Austrália (2009), Sarah Greenwood por Desejo e Reparação (2008), Nick Ralbovsky por A Pele (2007), Jim Clay e Geoffrey Kirkland por Filhos da Esperança (2006).

Melhor Figurino
A Jovem Rainha Vitória
Sandy Powell

Um dos aspectos mais marcantes da Era Vitoriana da Inglaterra, período que marcou o reinado da Rainha Vitória, eram as roupas. Até hoje, aos trajes da época são atribuídos um estilo chamado Vitoriano. O guarda-roupa de A Jovem Rainha Vitória, elaborado por Sandy Powell, reproduz com fidelidade o figurino de uma época que exalava romantismo. Recriando um período de prosperidade para o país, que cada vez mais se expandia com as possibilidades que a Revolução Industrial vislumbrava, o filme traz os primeiros anos de governo da monarca, muito nova na época, além de seu romance arrebatador com o Príncipe Albert. Assim, dá para entender todos aqueles babados e o tom ingênuo das cores que Vitória costumava usar e Sandy Powell não faz concessões, surpreendendo ao recriar com riqueza de detalhes as roupas da época, praticamente uma extensão do espírito e da idade da monarca inglesa.

Menções: Brilho de uma Paixão, Chéri, Coco Chanel e Igor Stravinsky, Direito de Amar, Nine.
Em anos anteriores: Catherine Martin por Austrália (2009), Jacqueline Durran por Desejo e Reparação (2008), Yee Chung Man por A Maldição da Flor Dourada (2007) e Colleen Atwood por Memórias de uma Gueixa (2006).

Melhor Maquiagem
Alice no País das Maravilhas

Costumo dar preferência, nesta categoria, a trabalhos de maquiagem que sirvam  de suporte para a construção de personagens, estes quando requerem o uso deste recurso consegue resultados mais efetivos e que comprovam a excelência e o empenho de uma equipe de maquiagem em um filme. Portanto, Alice no País das Maravilhas, a despeito de apresentar todos os defeitos possíveis em sua narrativa, é um excelente exemplo de como a concepção visual de personagens através da maquiagem pode ajudar a criar um universo único e completamente novo para o espectador. Dentre as principais realizações da equipe de Tim Burton neste setor estão o Chapeleiro Maluco de Johnny Depp e a Rainha Vermelha de Helena Bonham Carter, ainda podemos citar a Rainha Branca de Anne Hathaway, todas criações que mostram-se fiéis (ao menos esteticamente) ao espírito da obra fantástica de Lewis Carrol.

Menções: Coco Chanel e Igor Stravinsky, Direito de Amar, Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1, Ilha do Medo, O Segredo dos seus Olhos.
Em anos anteriores: O Curioso Caso de Benjamin Button (2009), Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008), Apocalypto (2007), Memórias de uma Gueixa (2006).

Melhores de 2010 - Técnica

Melhor Edição
A Rede Social
Kirk Baxter e Angus Wall

A forma com que Kirk Baxter e Angus Wall ajudam David Fincher a juntar as peças de A Rede Social em sua edição é acachapante. Intercalando as audiências dos processos movidos por Eduardo Saverin e os Winklevoss contra Mark Zuckerberg pela autoria do Facebook com flashbacks que revelam os meandros da teia derelacionamentos formada em Harvard para a criação da rede social, a edição é fundamental para dar ritmo ao jogo de intrigas e fofocas que o filme traz. Na grande maioria dos casos, flashbacks não são bem-vindos no cinema, ou mesmo são utilizados de maneira desastrosa, assim como bastidores de processos judiciais, porém em A Rede Social a maneira com que Kirk Baxter e Angus Wall os utilizam transformaram o filme em um dos trabalhos mais urgentes do ano.

Menções: Amor sem Escalas, O Escritor Fantasma, Kick-Ass - Quebrando Tudo, A Origem, À Prova de Morte.
Em anos anteriores: Chris Innis e Bob Murawski por Guerra ao Terror (2009), Lee Smith por Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008) e Richard Chew por Bobby (2007).

Melhores Efeitos Especiais ou Visuais
A Origem

Fazer uma cidade se dobrar ou coreografar uma luta que desafia gravidade como vimos em A Origem por si só já valeria a menção deste filme nesta categoria, mas Christopher Nolan, como o faz na maioria de seus filmes, merece créditos por tornar todo este espetáculo digital orgânico em sua trama. Seguindo a sábia tendência da utilização de efeitos digitais e visuais em Hollywood quando os mesmos são necessários para a trama, não tornando o roteiro ou a direção reféns dos mesmos, A Origem é um colosso de filme neste departamento. O mundo dos sonhos para Nolan e sua equipe de efeitos digitais é bem próximo do mundo real, mas sinuoso e desafiador quando a gente menos espera.

Menções: As Crônicas de Nárnia - A Viagem do Peregrino da Alvorada, Esquadrão Classe A, Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1, Scott Pilgrim contra o Mundo, Tron - O Legado.
Em anos anteriores: Avatar (2009), Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008), X-Men - O Confronto Final (2006).

Melhor Som
A Origem

Quer descobrir a qualidade do som de um filme? Assista-o em uma sala que ofereça o equipamento mais defasado possível ou mesmo no Home Theater de sua casa, um ambiente completamente propício à dispersão. Tive as duas experiências com A Origem e nas duas, neste departamento, o filme se saiu maravilhosamente bem. A qualidade sonora do filme só contribui para criar a tensão e o temor pelos personagens de A Origem do início ao fim.

Menções: Ilha do Medo, Invictus, Karate Kid, Toy Story 3, Tron - O Legado. 
Em anos anteriores: Avatar (2009) e Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008).

Melhor Mixagem de Som
Como treinar o seu Dragão

O trabalho de mixagem de som por trás de Como treinar o seu Dragão é bem mais complexo do que possamos supor. Além de ter sido essencial, juntamente com o design de produção, para dar personalidade e singularidade a cada uma das espécies de dragão que o filme apresenta, foi vital para dar a devida dimensão às fantásticas sequências de ação do longa, incluindo as cenas de treino na areno com os dragões, os voos de Soluço e Banguela e a grandiosa batalha final do filme. Um trabalho fundamental para proporcionar a imersão do espectador nesta que foi a melhor animação que a DreamWorks já fez.

Menções: Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1, Invictus, A Origem, Toy Story 3, Tron - O Legado.
Em anos anteriores: Avatar (2009) e Wall-E (2008).

Melhores de 2010 - Trilhas Sonoras

Melhor Trilha Sonora Original
A Origem
Hans Zimmer

O teaser trailer de A Origem já denunciava que a trilha sonora de Hans Zimmer para o filme iria ser memorável. A promessa foi cumprida e tranquilamente podemos dizer que o tema principal do filme é um dos grandes responsáveis por fazer-nos embarcar de cabeça no clima de tensão constante do longa de Christopher Nolan. Zimmer acompanha a crescente tensão que se forma para o grupo de espiões industriais liderados por Cobb (DiCaprio), na medida em que adentram nas camadas dos sonhos e têm de encarar os perigos que uma mente conturbada e traumatizada como a de Cobb inevitavelmente guardam. Zimmer compõe uma trilha grandiosa, inesquecível e que também reserva bons momentos para passagens mais singelas, como as sequências entre Cobb e Mal. Por mais que este tenha sido um ano de experimentações e inserções no universo eletrônico, como foram os casos das excelentes trilhas de A Rede Social e Tron - O Legado, Zimmer conseguiu criar uma trilha impactante, inesquecível, que certamente nos fará lembrar de A Origem assim que ouvirmos o primeiro acorde.

Menções: Alexandre Desplat por O Escritor Fantasma, Danny Elfman por Alice no País das Maravilhas, Daft Punk por Tron - O Legado, Trent Reznor e Atticus Ross por A Rede Social, Hans Zimmer por Sherlock Holmes. 
Em anos anteriores: Michael Giacchino por Up - Altas Aventuras (2009), Dario Marianelli por Desejo e Reparação (2008), Alexandre Desplat por A Rainha (2007) e Gustavo Santaolalla por O Segredo de Brokeback Mountain (2006).


Melhor Compilação Musical ou Trilha Sonora não Original
Ilha do Medo
Robbie Robertson

Quando Martin Scorsese resolveu dirgir Ilha do Medo não queria um compositor específico em sua trilha sonora. Assim como fez em sua direção, repleta de referências a gêneros e escolas do cinema norte-americano, incumbiu ao canadense Robbie Robertson, líder da The Band que acompanhou durante anos Bob Dylan, para realizar a direção musical da trilha de seu novo projeto. O resultado é fantástico e poucas vezes vimos um casamento tão harmônico entre uma seleção musical e a direção de um filme. Desde a chegada do policial Teddy Daniels (DiCaprio) a Shutter Island em uma embarcação embalada pela "Simphony n°3 - Passacaglia", até "Cry" de Johnny Ray, a trilha de Ilha do Medo se sai melhor do que muitos trabalhos originais neste departamento que vimos nos últimos anos. Se não soubéssemos previamente que trata-se de uma junção de realizadores, uma excelente seleção, poderíamos dizer que foi composta por um James Horner ou um Hans Zimmer da vida, não?

Menções: Amor sem Escalas, O Garoto de Liverpool, Homem de Ferro 2, Kick-Ass - Quebrando Tudo, À Prova de Morte.


Melhor Canção Original
Toy Story 3
"We belong together" - Randy Newman

A cena final de Toy Story 3 é tão dilacerante em emoções que iniciar os créditos finais do filme com a trilha instrumental que conduziu este momento seria pesado demais para um filme que, apesar do alto teor emotivo, pretende ser um grande entretenimento para toda a família. Pensando nisso, Randy Newman, colaborador de carteirinha da Pixar, compôs "We belong together", canção que embala as divertidas sequências em que conferimos como os brinquedos de Andy estão se saindo no novo lar. A música tem um arranjo que casa perfeitamente com o tom de diversão da infância que é a proposta da série desde o primeiro filme e, apesar de ter uma certa semelhança com a icônica "You've got a friend in me" do Toy Story de 1995, tem vida própria e sintetiza a essência do filme: destacar a infância como uma fase inigualável em nossas vidas.

Menções: "I cried like a silly boy" de Devotchka em O Golpista do Ano, "Little One" de Lucy Schwartz em Destinos Ligados, "Sticks and Stones" de Jónsi em Como treinar o seu Dragão, "You've got me wrapped around your little fingers" de Betty Rowley em Educação. (Retirei a candidatura de "Wake Up" do Arcade Fire pois a música não foi composta originalmente para Onde vivem os Monstros)
Em anos anteriores: "Down in New Orleans" de Randy Newman em A Princesa e o Sapo (2009) e "Down to Earth" de Peter Gabriel e Thomas Newman em Wall-E (2008).

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Melhores de 2010 - Casts

Melhor Elenco
O Garoto de Liverpool
Aaron Johnson
Kristin Scott Thomas
Anne-Marie Duff
David Morrissey
Thomas Brodie Sangster
David Threlfall

O enfoque dado por O Garoto de Liverpool à vida de John Lennon não seria tão certeiro sem o elenco escalado para viver os personagens centrais do eixo dramático desta narrativa. Se por um lado criamos uma profunda admiração por Julia e Mimi, mães biológica e adotiva de Lennon, respectivamente, não deixamos de compreender a rebeldia e a necessidade de conhecer a própria origem e de ter um referencial masculino do jovem John Lennon. A cena em que Mimi revela a Lennon, com todos os detalhes possíveis, as razões que fizeram Julia deixar seu primogênito aos seus cuidados na presença da mesma é simplesmente arrebatadora e Aaron Johnson, Kristin Scott Thomas e Anne-Marie Duff conseguem externar e dosar suas emoções, transparecendo na tela a generosidade e sinergia do trio em O Garoto de Liverpool.

Menções: O Escritor Fantasma, A Fita Branca, Ilha do Medo, Minhas Mães e Meu Pai, Sei que vou te amar.
Em anos anteriores: Bastardos Inglórios (2009) e Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008).

Melhor Dupla em Cena
Minhas Mães e Meu Pai
Annette Bening e Julianne Moore

Na ocasião em que escrevi a resenha de Minhas Mães e Meu Pai (ver no arquivo de novembro na lateral do blog) afirmei que seria uma grande injustiça reconhecer isoladamente o trabalho de Annette Bening ou Julianne Moore por este filme em qualquer premiação. Nesta comédia independente de Lisa Cholodenko, Annette Bening só tem o desempenho que tem em função de sua parceria com Julianne Moore, assim como Julianne Moore oferece uma interpretação convincente e humana graças a Annette Bening. Aqui, a experiência destas veteranas, que nunca receberam um Oscar, proporciona uma parceria deliciosa, agradável e que provoca de imediato a empatia das platéias. É inegável, Minhas Mães e Meu Pai só conseguiu o reconhecimento da crítica e do público pela força que Bening e Moore conferem à relação entre Nic e Jules.

Menções: Jeff Bridges e Maggie Gyllenhaal em Coração Louco, Robert Downey Jr. e Gwyneth Paltrow em Homem de Ferro 2, Emily Blunt e Rupert Friend em A Jovem Rainha Vitória, Robert Downey Jr. e Jude Law em Sherlock Holmes, Shia LaBeouf e Carey Mulligan em Wall Street - O Dinheiro nunca Dorme.
Em anos anteriores: Kate Winslet e Leonardo DiCaprio em Foi Apenas um Sonho (2009).

Melhor Performance Infanto-Juvenil
Max Records
Onde vivem os Monstros

Max Records é um fenômeno! No conto melancólico sobre a forma com que lidamos com sentimentos ruins, especialmente na infância, o personagem de Max Records é transportado para um mundo habitado por criaturas estranhas que se corrompem pelos mesmos sentimentos ruins que fazem mal ao protagonista de apenas oito anos deste filme. O fato é que, em Onde vivem os Monstros, Max Records conduz todas estas emoções com uma maturidade e uma sensibilidade raramente vistas em crianças de sua idade nas telonas. A separação dos pais, a falta de compreensão da irmã adolescente e ameaça que um possível novo relacionamento de sua mãe representa faz o protagonista deste filme sobre crianças (e não para crianças) um veículo exclusivo para Max Records brilhar e emocionar o público.

Menções: Chloe Moretz em Kick-Ass - Quebrando Tudo, Leonard Proxauf em A Fita Branca, Saoirse Ronan em Um Olhar do Paraíso, Thibault Sérié em A Fita Branca e Jaden Smith em Karate Kid.
Em anos anteriores: Isabelle Fuhrman por A Órfã (2009) e Kodi Smit-McPhee por Romulus, Meu Pai (2008).