 |
Natalie Portman em cena de Cisne Negro: libertação na busca da perfeição.
Darren Aronofsky realizou o impensável com Cisne Negro, transformou a elegância e suavidade do balé em um verdadeiro tormento psicológico de uma bailarina em ascensão na busca pela perfeição. Buscando elementos que tornaram-se marca registrada de sua filmografia, vide Requiém para um Sonho de 2000 e O Lutador de 2008, Aronofsky centra sua narrativa de Cisne Negro nos esforços auto flagelantes de uma profissional a procura do melhor desempenho possível e a maneira doentia com que sua mente assimila revanchismo e libertação, exteriorizando na tela o aspecto mais sombrio de uma natureza há anos reprimida. Oscilando a narrativa de Cisne Negro entre a dura realidade das bailarinas nas coxias e as perturbadoras armadilhas preparadas por Nina, protagonista vivida por Natalie Portman, Darren Aronofsky faz de seu novo filme seu trabalho mais incomum e por isso mesmo brilhante nos esforços narrativos e dramáticos.
Nina (Portman) é uma bailarina em ascensão que consegue o que muitas almejam, o papel da Rainha Cisne na montagem de Lago dos Cisnes que a companhia da qual é integrante pretende estrear. O grande problema é que a jovem, criada como um bibelô por sua mãe controladora, é extremamente técnica, conseguindo alcançar a delicadeza do Cisne Branco, mas jamais a passionalidade e a fúria do lado obscuro representado pelo Cisne Negro. O roteiro, escrito a três mãos (Mark Heyman, Andres Heinz e John J.McLaughlin), utiliza sabiamente o sexo como elemento libertador de Nina, provocando a personagem a todo momento a quebrar o casulo imposto por sua mãe, uma espécie de proteção para que Nina não pudesse arruinar sua brilhante carreira. Heyma, Heinz e McLaughlin também trabalham muito bem a evolução da personagem e sua gradual libertação, bem como os obscuros caminhos que a mesma percorre para alcançar as exigências requeridas na composição do Cisne Negro.
Aronofsky realiza um filme no qual os delírios de Nina surgem obscuros e convergem constantemente com a realidade enfrentada pela jovem, tornando o filme um longa tenso que flerta constantemente com o horror, mesmo que não possa ser taxado como um filme deste gênero. A interpretação de Natalie Portman representa a dedicação e o esforço físico e psicológico de uma atriz. Com um sadismo digno do dinamarquês Lars Von Trier, Aronofsky joga a ingenuidade de Nina na fogueira e testa a atriz, exigindo com certa crueldade a fúria que a personagem jamais consegue atingir. A resistência, incompreensão e sofrimento inicial de Nina dão lugar a seu lado mais sombrio e redentor, ainda que para isso, dolorosamente, a personagem recorra a construções mentais nada louváveis ou edificantes. O elenco de coadjuvantes proporcionam a Nina esta mudança gradual, incluindo a excelente interpretação de Mila Kunis como uma espécie de personificação da Cisne Negro, atrevida e sexualmente liberta. Também destacam-se Vincent Cassel, como o exigente diretor da companhia, e Barbara Hershey, como a complicada mãe da protagonista que priva sua própria filha do amadurecimento na ilusão de que assim a mesma possa ter a carreira de bailarina que a mesma nunca teve, além de Winona Ryder em uma pequena mas interessante participação como a antecessora de Nina na companhia.
Os esforços do elenco, sobretudo a interpretação visceral e completa de Natalie Portman, e os experimentalismos e a ousadia habitual de Darren Aronofsky fazem de Cisne Negro um filme eterno e certeiro ao desafiar o espectador a desvendar o lado sombrio da mente humana. A perfeição certamente não existe e tentar alcançá-la a todo custo certamente traz à tona danos irreversíveis a qualquer indivíduo que a persiga com obstinação. Assim, nada é tão belo que valha as consequências da vaidade e da inveja desmedida e ainda que Nina tenha se libertado do casulo, a complexidade de sua personalidade reprimida veio à tona de maneira violenta e tardia. Seja quais forem os esforços que Darren Aronofsky e Natalie Portman moveram na construção de Cisne Negro, o resultado é sedutoramente sombrio e almeja a perfeição. |


Black Swan, 2010. Dir.: Darren Aronofsky. Roteiro: Mark Heyman, Andres Heinz e John J. McLaughlin. Elenco: Natalie Portman, Vincent Cassel, Mila Kunis, Barbara Hershey, Winona Ryder, Benjamin Millepied, Ksenia Solo, Kristina Anapau, Janet Montgomery, Sebastian Stan, Toby Hemingway. 108 min. Fox
2 comentários:
A obra-prima de Darren Aronofsky! E o melhor filme em cartaz nos cinemas brasileiros em 2011.
Abs!
Filmão! Perfeito e envolvente! ;)
Postar um comentário