 |
Jacki Weaver entre seus filhos em Reino Animal, Ben Mendelsohn e Luke Ford.
Vencedor de oito prêmios na última edição do AFI Awards, o equivalente ao Oscar na Austrália, Reino Animal é um revigorante representante da nova safra do cinema australiano. Através de uma trama que mistura elementos tradicionais dos clássicos filmes de gângsters, alguns deles que fizeram a carreira de cineastas como Martin Scorsese e Brian DePalma, por exemplo, David Michôd investiga a violenta e soturna dinâmica familiar do clã Cody, uma família de criminosos urbanos. O cineasta realiza uma obra agressiva e implacável na medida em que revela, através de seus personagens, o teor doentio e caótico de relações estabelecidas em meio ao que existe de pior na natureza humana. Reino Animal é um filme que expõe a sociedade em seu formato involutivo que descarta qualquer resquício de humanidade, mesmo no mais genuíno ambiente de afeto do homem, o seio familiar.
O filme tem início quando Joshua, um jovem com seus 18 anos que acaba de perder a mãe, vítima de uma overdose de heroína, passa a viver na casa de sua avó materna e de seus quatro tios. Com sua nova realidade, Joshua começa a conviver no dia-a-dia com as práticas criminosas de sua família, que incluem tráfico de drogas e uma série de assassinatos. Quando o cerco se fecha para a família Cody, Joshua se vê no dilema de entregar todo o esquema de seus pares ou permanecer calado e beneficiar-se da proteção dos mesmos. O roteiro de Michôd é interessante na medida em que revela os desvios de personalidade de seus personagens centrais e a teia de corrupção traçada pelos mesmos, estabelecendo um paralelo com a perspectiva de Joshua sobre todo aquele universo sinuoso e arriscado. Externando o teor bestial dos membros da família através de sequências geniais e diálogos afiados, até mesmo Joshua (este, apesar de relutante em igual a seus tios, demonstra uma certa apatia e frieza em momentos cruciais como na morte de sua mãe), Reino Animal trata a tendência criminosa destes personagens como uma espécie de predestinação e os instintos de sobrevivência estabelecem um jogo de poder e afeto.
A direção de Michôd é elegante e surpreendentemente madura pela dureza e violência com que expõe sua narrativa. O elenco do longa é espetacular, especialmnte Ben Mendelsohn e Jacki Weaver, esta última última indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante por este trabalho neste ano. Mendelsohn está sensacional na pele do explosivo e estranho Tio Papa, um sujeito imprevisível que passa insegurança e medo pela inconstãncia e agressividade de suas reações. Weaver, por sua vez, compõe uma personagem delicada na medida em que mescla frieza e doçura como matriarca desta família incomum.
Reino Animal é um filme adulto e de difícil apreciação já que expõe sem perdão um aspecto do ser humano que repugnamos mas que inevitavelmente manifesta-se perigosamente em uma sociedade marcada por deturpações e distorções éticas. A produção australiana mais premiada de 2010 cumpre com louvor sua missão de expor através de seus personagens os desvios de personalidade do ser humano, aproximando-os do selvagem. Assim, a sociedade entra em um ligar no qual dificilmente possa ser vislumbrado uma saída, ainda que os sujeitos de toda essa perversidade e desapego a valores humanos possuam laços de sangue e de afeto. |


Animal Kingdom, 2010. Dir.: David Michôd. Roteiro: Davi Michôd. Elenco: James Frencheville, Ben Mendelsohn, Jacki Weaver, Guy Pearce, Sullivan Stapleton, Luke Ford, Joel Edgerton, Mirrah Foulkes, Laura Wheelwright, Susan Prior. 113 min., Sony.
Em DVD.
1 comentários:
Wanderley, esse filme me deixou tensa! Só me dei conta de mim quando acabou; parecia que haviam se passdo uns 5 minutos. Bom demais!
Postar um comentário