sábado, 9 de abril de 2011

Cópia Fiel

William Shimell e Juliette Binoche em cena de Cópia Fiel.

Na visão de James Miller, escritor e personagem de William Shimell neste Cópia Fiel, no campo das artes, não há cópia que valha menos que a original. Assim, a noção de autenticidade, não só da obra de arte, é discutida por Abbas Kiarostami neste interessantíssimo filme que rendeu, meecidamente, o prêmio de melhor atriz a Juliette Binoche na última edição do Festival de Cannes. Cópia Fiel inicia sua narrativa expondo para o espectador seus dois protagonistas, William e Elle. Ele é um escritor inglês de passagem pela Toscana na Itália para divulgar seu recente livro, intitulado Cópia Fiel, que discute toda esta questão da reprodutibilidade de um bem artístico. Já ela é uma dona de uma galeria de arte que há anos vive na Itália e que revela-se curiosamente atraída pelas ideias do escritor, curiosamente porque boa parte de seus posicionamentos são diametralmente opostos. Em dado momento da trama a vida destes personagens colidem e aos poucos o roteiro revela a real ligação entre os dois personagens.

O mais interessante de Cópia Fiel é o nível de instabilidade que o espectador sente do início ao fim com relação aos personagens, a trama e a mensagem na obra. Até o último instante, Abbas Kiarostami cria uma rede de diálogos que revelam acontecimentos e sentimentos dos personagens, delineando artesanalmente seus principais objetivos com a obra. Até o último diálogo, ou melhor, até a última cena de Cópia Fiel o público não terá uma definição concreta sobre o que viu ou uma interpretação definida do filme. Tal qual uma réplica perfeita de uma obra original, sentimetos são mascarados ou mesmo confundidos com projeções que oferecem falsas noções de amor que instauram dúvidas e ilusões na dinâmica entre a dupla de protagonistas. Assim, da mesma forma que a noção de obra autêntica revela-se frágil no universo contemporâneo das artes, a noção da autenticidade de sentimentos é posta em cheque na medida em que personagens enganam a si mesmos e a terceiros em relacionamentos frágeis e, muitas vezes, expostos ao ridículo. Pode parecer um raciocínio, uma ponte, difícil e estranha de ser estabelecida mas o longa faz isso belissimamente bem.

Abbas Kiarostami realiza um trabalho irretocável na condução do roteiro, mas principalmente na direção de seu filme, marcado praticamente pela ausência de cortes. A mão de Kiarostami é fundamental para nos conduzir pouco a pouco nos inúmeros sentimentos que revelam-se na relação entre James e Elle. Juliette Binoche está incrível como a protagonista feminina do longa, a composição da atriz francesa é atenta à complexidade de sua personagem desde a primeira sequência do filme onde revela sutilmente sua devoção ao personagem de William Shimell. Crédula até o último momento que de alguma forma é correspondida sentimentalmente (algo do tipo: "sei que ele me ama, só não demonstra porque seu jeito é assim mesmo: frio"), Elle realiza projeções para seu relacionamento com James, recusando-se a acreditar que o mesmo está propenso ao fracasso por mais que hajam sinais mais que evidentes para tanto, uma personagem fascinante que é defendida com sensibilidade por Binoche, uma das grandes interpretações de sua carreira. William Shimell também está muito bem, especialmente em uma cena protagonizada pelo casal em uma cantina italiana, uma revelação em sua estreia nas telonas.

Abbas Kiarostami arrisca-se em Cópia Fiel na medida em que joga a platéia no terreno da instabilidade. Não há certeza sobre a veracidade das palavras e dos sentimentos de seus personagens e os diálogos do filme desabrocham possíveis interpretações para a obra que talvez desagradem o grande público (lembram-se da discussão em torno de A Origem: "O público detesta instabilidade em uma obra cinematográfica, gosta de saber onde está pisando."). A condução de Abbas Kiarostami e as interpretações enérgicas de Binoche e Shimell estabelecem um duelo verbal e emocional entre homens e mulheres que expõem as fragilidades de ambos o sexos na hora de lidar com relacionamentos amorosos. Cópia Fiel é um filme pontual, um desafio à mente e à percepção das emoções.



Copie Conforme, 2010. Dir.: Abbas Kiarostami. Roteiro: Abbas Kiarostami. Elenco: Juliette Binoche, William Shimell, Jean-Claude Carrière, Agathe Nathanson, Gianna Giachetti, Adrian Moore, Angello Barbagallo, Andrea Laurenzi, Filippo Trojano. 106 min. Imovision.

1 comentários:

Pedro Henrique Gomes disse...

Obra-prima. Um dos melhores do ano, creio.

Abraço!