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| Brad Pitt em A Árvore da Vida, de Terrence Malick: a graça e a natureza da vida. |
Antes de traçar estas linhas sobre A Árvore da Vida, passei boas horas estático na frente do computador sem sabr ao certo por onde começar. Vencedor da Palma de Ouro na última edição do Festival de Cannes, A Árvore da Vida é um filme sensorial, há muito pouco que racionalizar sobre as poéticas sequências concebidas por Malick. Utilizando a família O'Brien como ponto de partida para desenvolver seu trabalho, Malick expõe um dedicado trabalho que visa contrapor a beleza e inocência da vida com a fúria implacável da mesma. Muito bem fotografado e conduzido com destreza e com uma sensibilidade fora do comum, A Árvore da Vida traz o dilema que levamos para toda a vida e que nos atormenta durante nossa infância, culminando com a perda da inocência do início da adolescência: ser bom e generoso com a vida e, ao mesmo tempo, ter a malícia que a mesma exige, saber se impor diante de seus implacáveis desígnios, caso contrário, seremos tragados e anulados pela sociedade.
Terrence Malick, surpreendentemente pouco conhecido do grande público apesar de ter feito obras como Terra de Ninguém, Além da Linha Vermelha, traça praticamente uma tese sobre as referências de conduta que levamos para nossas vidas (para quem não sabe Malick foi professor de filosofia). Talvez ele tenha alcançado o máximo em poesia com imagens neste A Árvore da Vida, mostrando-se como um dos trabalhos mais plenos em emoções que o cineasta já concebeu. Malick utiliza brilhantemente os perfis bem delineados dos O'Brien (Brad Pitt e Jessica Chastain) para proporcionar os conflitos internos de Jack, um dos filhos do casal. Assim, as imagens idealizadas de pai e mãe vão se corroendo diante do garoto, a mesmo tempo que seus legados (a graça e a natureza) se solidificam e, a cada colisão, trazem dor e remorso. Não por acaso, o diretor insere uma longuíssima sequência que inicia-se com a criação da Terra e termina com dinossauros (!!!!) para atestar que este paradoxo move a existência desde os primórdios e para, de certa maneira, responder às indagações dos personagens a Deus. Deus acaricia com a graça e nos testa violentamente para a sobrevivência com a natureza. Por que a bondade e a crueldade vêm na mesma proporção e simultaneamente?
Mais uma vez, A Árvore da Vida é um trabalho eminentemente sensorial, principalmente nas sequências conduzidas por Jack em sua maturidade, vivido por Sean Penn, onde somos apresentados, fisicamente, a sentimentos, lembranças, conflitos e memórias do personagem. Por sua vez, as cenas que se destinam à infância de Jack e seus irmãos, apesar de igualmente traçadas sem obedecer qualquer lógica cronológica ou narrativa, nos conduzem às possíveis conclusões que venhamos ter sobre o teor do longa. Brad Pitt te ótimos momentos como Sr. O'Brien, conseguindo dosar muito bem a rigidez de sua figura paterna com discrição de suas demonstrações de afeto pelos três filhos. Pitt não cai na armadilha de retratá-lo como um homem detestável e violento, algo que poderia ser fácil nas mãos de alguém menos experiente. O ator humaniza o personagem na medida em que compreende que as atitudes de O'Brien não são sinais de uma truculência, mas sim de um afeto, de uma preocupação com a criação de seus filhos. Jessica Chastain, revelação de Malick, também tem um trabalho brilhante neste filme na medida em que preenche sua personagem de bondade e doçura sem cair no terreno das afetações e dos artificialismos. O garoto Hunter McCracken, por sua vez, consegue lidar habilmente com a instabilidade emocional e as crises de consciência de Jack, que vivido na fase adulta por Sean Penn tem uma interpretação igualmente cuidadosa, mas menos impactante - o que não é culpa do ator, tampouco de Malick, mas sim do curso natural do filme.
Revelando-se como um dos filmes mais polêmicos do ano por sua abordagem ( e pensávamos que Cisne Negro era imbatível neste quesito...), A Árvore da Vida é um filme que despertará amor e ódio nas plateias, e isto dependerá de como a mesma encarará a "tese" de Malick - se identificará ou não com ela? -, ou seja, os critérios e argumentos para se gostar ou não do filme são pessoais, subjetivos, muito mais que técnicos ou narrativos. Particularmente, Terrence Malick alcança o sublime com este filme. É preciso ter muita sabedoria e amor pela vida para conceber um filme como este, que certamente se revela como uma das obras mais autobiográficas do diretor (Malick rodou as cenas dos O'Brien em Waco, Texas, onde nasceu e viveu parte de sua infância). Emotivo e completo, A Árvore da Vida é um dos filmes mais bonitos que o cinema norte-americano já concebeu, não bonito por nos conduzir ao seu desfecho com uma bela fotografia (isto ele também o faz), mas por demontrar em cada frame seu respeito e paixão pela família e pelo amor, sem precisar ser áspero ou violento para nos mostrar a face amarga e triste da vida.
Aqui, pouco interessa atestar ou contestar a genialidade de Terrence Malick, viés que, infelizmente, a maioria dos críticos de cinema estão dando ao filme, desmerecendo-o desta maneira, isto a gente só irá constatar daqui há alguns anos. Não estou querendo encontrar em A Árvore da Vida uma obra-prima, mas claro que será maravilhoso ver este filme resistir ao tempo e se firmar como tal, mas perceber as qualidades de Terrence Malick como artista. Malick é um dos poucos diretores da atualidade que conferem este caráter artesanal a suas obras, comparando-se a ele Paul Thomas Anderson. Através de A Árvore da Vida, Malick lança um olhar sensível sobre a condição humana e consegue isto maravilhosamente bem, sendo esta constatação o que importa de fato na avaliação do filme.
The Tree of Life, 2011. Dir.: Terrence Malick. Roteiro: Terrence Malick. Elenco: Brad Pitt, Sean Penn, Jessica Chastain, Hunter McCracken, Fiona Shaw, Laramie Eppler, Tye Sheridan, Jessica Fuselier, Nicolas Gonda, Will Wallace, Kelly Koonce. 139 min. Imagem Filmes.



4 comentários:
Eu li na Folha q esse filme se iguala ao filme de Kubrick, "Uma Odissseia no Espaço". Achei exagerado,mas como não assistir o filme de Malick ainda... Bom texto Wand.
Ele se iguala a "2001" na ousadia e na abordagem, agora se daqui há alguns anos causará o mesmo efeito de "2001" só o tempo dirá. Não acho que é exagerado, talvez precipitado, mas de toda maneira Terrence Malick conseguiu realizar um filme inesquecível par quem tiver mente e coração aberto para receber sua obra.
Parece espetacular, Wanderley! Tomara que eu goste tanto quanto gostei da sua análise! Um abraço, S.
Como tú dices un trabajo eminentemente sensorial. A mi me gusto bastante la película.
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