sábado, 17 de dezembro de 2011

Tudo pelo Poder

Ryan Gosling em cena de Tudo pelo Poder, quarto longa-metragem de George Clooney.
O roteiro de Tudo pelo Poder funciona como uma grande e complexa engrenagem. Movendo seus personagens como peças de xadrez para transmitir sua ideia derradeira, o quarto longa-metragem de George Clooney forma uma interessante e intrincada teia conspiratória para desnudar os bastidores da política, como um ambiente naturalmente propício a estimular o que existe de pior no ser humano. Como já dito a exaustão, trata-se do Todos os Homens do Presidente da carreira de Clooney e, como não poderia deixar de ser, já que trata de um tema corrente na vida e na carreira do mesmo, recebe um tratamento impecável. Clooney é hábil com a temática, sem deixá-la inacessível ou fria demais, como um Soderbergh, por exemplo, retomando a uma linguagem e narrativa que o fizeram conceber um de seus melhores filmes, Boa Noite e Boa Sorte, de 2005. Direto, incisivo e elegante, Tudo pelo Poder confirma o talento e a relevância de George Clooney no panteão hollywoodiano.

O filme conta a história de um jovem assessor chamado Stephen Meyers (Ryan Gosling) que, durante as votações para a Primária da próxima eleição para a presidência dos EUA, vê-se envolvido no impiedoso e amoral bastidor da política. Trabalhando para um democrata, considerado pelo próprio Meyers como um bastião dos mais nobres valores americanos, Stephen acaba perdendo a ingenuidade e percebendo que cedo ou tarde terá que ceder às pressões, se quiser continuar no "jogo". O roteiro, escrito por Clooney, seu habitual parceiro Grant Heslov e o autor da peça que inspirou o filme Beau Willimon, é engenhoso e estimula o raciocínio e os nervos da plateia durante toda a projeção, tornando Tudo pelo Poder um eficiente thriller político. Contudo, o longa apresenta bem mais ressonância que as fronteiras de um gênero cinematográfico poderiam inibir. Maduro em sua linha de raciocínio, o filme expõe o regime democrático às inevitáveis pressões do capitalismo: dinheiro e poder. Como resultado, percebemos todas as falhas e ranhuras de um regime que só traz retorno significativo para burocratas e seus staffers, ou seja, os eleitores são meio e não fim.

Mais interessante ainda é perceber a interessante construção de Clooney e seus colaboradores. Estrategicamente, todo o longa se passa na Primária dos Democratas, um partido que ainda detém a imagem de virtuosismo político. E para contra-argumentar àqueles que podem dizer que o filme tem significado apenas para os americanos, basta fazer paralelos com a recente trajetória do PT, partido que por anos foi considerado como a última esperança de honestidade e ética na política e que, bastou chegar ao poder para revelar suas falhas. Enfim, o problema não está em pessoas ou partido e esta conclusão é tirada com brilhantismo ao final de Tudo pelo Poder, mas no sistema e em suas emaranhadas relações escusas, interesseiras e antiéticas.

Um elenco excepcional que conta com o próprio Clooney, Philip Seymour Hoffman, Evan Rachel Wood (ótima como uma estagiária que se relaciona com o protagonista), Marisa Tomei e Paul Giamatti contribui para a história ser ainda mais rica e cheia de nuances. Protagonista do filme, Ryan Gosling é ainda mais interessante em sua composição que seus parceiros de cena, já que é uma espécie de cobaia em meio ao impiedoso envolto que Tudo pelo Poder constrói. Gosling não decepciona e adota uma composição sutil que encontra seu ápice no terceiro e último ato do filme.

Tudo pelo Poder é um engenhoso filme que trata sobre a perda de referenciais e ideais. George Clooney firma-se como um os grandes realizadores norte-americanos em atividade. Como diretor, ele tem o vigor e a elegância de um Martin Scorsese, Clint Eastwood ou Francis Ford Coppola. Melhor, sem comparativos, a obra de Clooney tem como referência as ideias e a sofisticação do próprio como homem de cinema. Tudo pelo Poder é filme de gente grande para gente grande.


The Ides of March, 2011. Dir.: George Clooney. Roteiro: George Clooney, Grant Heslov e Beau Willimon. Elenco: Ryan Gosling, George Clooney, Philip Seymour Hoffman, Paul Giamatti, Evan Rachel Wood, Marisa Tomei, Jeffrey Wright, Max Minghella, Jennifer Ehle, Gregory Itzin, Michael Mantell. 101 min. Califórnia Filmes.

0 comentários: